Aposentei, e agora?

David de Aquino Filho

Se fizermos uma rápida busca sobre a origem da palavra aposentadoria chegaremos a “aposentos”. Aposentar é considerado na nossa previdência social ficar no status de inativo. Como isso acontece em geral com pessoas com mais de 60 anos, o inativo também é um idoso, considerando o estatuto do idoso. Quando você ouve essa expressão idoso inativo o que lhe vem à mente? Ela espelha a realidade dos dias de hoje? Será que nos aposentamos de fato?

Ser idoso não pode ser um fardo, um sinônimo de problemas e doenças. É uma fase de novas descobertas e possibilidades. Por sua vez a aposentadoria não significa de forma alguma inatividade. O termo inativo não serve para descrever o novo ritmo que as pessoas imprimem às suas vidas nos tempos atuais. Aposentadoria pode ser simplesmente um marco de um desligamento do mundo corporativo ou do mercado formal, só isso. E para alguns, nem isso.

Mas no imaginário, após vários anos de trabalho, esse momento é sonhado como a hora de aproveitar a vida. Isso se traduz em imagens de casais maduros com seus cabelos prateados e bem dispostos, sorrindo e curtindo, por exemplo, uma praia. Essa é a ideia que, por exemplo, os planos de previdência privada vendem com o objetivo de incentivar a constituição de uma reserva para se ter uma vida tranquila no futuro.

A educação financeira e previdenciária pode dar de fato esse suporte para o período pós ato de aposentadoria, que daqui para frente vou chamar simplesmente de pós aposentadoria. Mas considerando que chegar aos 60+ hoje é muito diferente do que era décadas atrás, pois há uma expectativa de vida longeva e de um envelhecimento ativo, então você poderá ter muitos projetos pele frente. É bem provável que ficar somente na praia não seja algo que você queira e muito menos ficar nos seus aposentos.

Para explorar mais essas possibilidades é preciso antes olhar para esse marco dos 60, 65 ou 70 anos como uma mera referência, diferente para cada pessoa. E como cada um chega a esse momento da vida? Somos um país com muita diversidade sociodemográfica com pessoas que pensam e agem diferentes. Alguns chegam nessa fase com um bom benefício, uma boa reserva e com um patrimônio, que seja pelo menos sua casa própria. Outros chegam sem o benefício ou com um benefício mínimo, sem reserva financeira e sem patrimônio, e às vezes endividados. Chega-se também diferente em termos de saúde, nível educacional, apoio social, psicológico e espiritual. São diferentes “aposentadorias”, cada uma com o seu guarda-chuva de proteção e umas praticamente sem guarda-chuva.

Todos pensam e precisam se ocupar, afinal quem quer se recolher aos aposentos? E como seria essa vida na pós aposentadoria? Como temos diferentes “aposentadorias”, é lógico que teremos diferentes formas de pensar essa ocupação. Quando falo de ocupação não estou falando necessariamente de um trabalho que gere renda, mas também pode ser, por que não? E muito menos estou falando em emprego na forma tradicional que o conhecemos e com vínculos contratuais formais. Estou falando de fazer algo que dê prazer, permita a socialização e traga sentido e significado alinhados ao propósito de vida de cada um.

Temos grandes desafios. Por um lado, a necessidade pode diminuir as escolhas e, por outro, a dificuldade de desapegar do mundo corporativo ou daquele trabalho formal, que ficou para trás, impede de buscar algo diferente. O que estou propondo é se reinventar, explorando as competências, ressignificando-as e partindo para algo novo, como aquilo que você sempre desejou e não teve oportunidade.

Sabe com quem os pós aposentados podem aprender e pensar fora das caixas tradicionais? Com as gerações mais novas que diante das mudanças no mundo do trabalho vem buscando saídas inovadoras e empreendendo socialmente e de forma coletiva. Aqui está mais um desafio, fazer as pontes necessárias e promover o encontro intergeracional. Juntar a criatividade disruptiva dos jovens com a criatividade madura dos 60+.

Cada vez mais encontraremos anos nas nossas vidas. O ideal é que sejam anos de qualidade. É preciso conversar sobre os diversos aspectos relacionados a um melhor aproveitamento dessa longevidade e envelhecimento ativo.

Um conjunto de ações precisa ser colocado em prática antes de se aposentar ou chegar a uma idade pré-determinada. São ações relacionadas à alimentação, atividade física, sono, aprendizagem, stress, relacionamento e espiritualidade, entre outras. Especificamente em relação ao suporte financeiro faço referência às orientações de constituição da reserva para a aposentadoria, algo que possa ser juntado ao benefício do INSS. Pode ser um plano de previdência privado ou uma carteira de investimento. Para que isso? Para te dar tranquilidade para realizar novos voos e projetos que idealizou e para fazer suas escolhas com mais autonomia.

Outro conjunto de ações deve ser ativado na pós aposentadoria. Falo de aproveitar essa nova fase da vida tendo junto uma educação financeira continuada, para empreender, para investir em você e para continuar aprendendo. Para os menos afortunados, para enfrentar um pouco melhor os novos desafios e qualificar sua existência.

Essa é uma proposta que não se resume apenas a educação financeira, pois precisa abordar também os diversos pilares da longevidade, com temas relacionados ao corpo, mente, relações e espírito. Não é a tradicional preparação para a aposentadoria mas uma preparação para a pós aposentadoria. Pense nisso!