Em defesa do BB

Gilberto Santiago

Noticiário recente divulgado na mídia ressalta uma série de providências administrativas que estão sendo tomadas pelo Banco do Brasil, em relação a seu quadro de pessoal, com cortes de comissões e fechamento de centenas de agências. Como é natural, surgem insinuações a respeito de iminente processo de privatização.

Uma privatização não se faz de uma hora para outra. De modo geral, ela é sequência de uma série de procedimentos ocorridos em diversas épocas – alguns com a aparência de simples “reestruturação” ou adaptação aos tempos modernos – no aguardo do tempo certo para a implementação dos últimos capítulos. Talvez seja esta a finalização que estamos presenciando agora.

Lembramos a carta aberta do saudoso Betinho, de 20 de outubro de 1995 (já se vão mais de 20 anos) dirigida “às amigas e amigos do Banco do Brasil“. Betinho relata a importância da adesão “entusiasta, surpreendente e nacional” dos funcionários que, por toda a parte, organizaram cerca de três mil comitês. Tudo estava bem, “até que chegou a onda de privatizações das empresas públicas”. E acrescenta: “A direção do Banco, seguindo à risca as instruções do Governo, começou o processo de demissões. A unidade que havia entre direções e base foi fortemente abalada, a crise se instalou no BB e, em consequência, nos comitês. Funcionários revoltados com o processo, e os demitidos, pararam de atuar, muitas vezes para cuidar da própria sobrevivência”. Como que profetizando o que viria a ocorrer 20 anos após, Betinho conclui que o Banco confirmava (já naquela época) a sua postura de instituição voltada ao mercado, perdendo muito de sua visão e missão social. E pergunta: “como separar as questões do Banco do Brasil da dinâmica da Ação da Cidadania? As instituições mudam, as direções passam, a cidadania e a solidariedade devem permanecer”.

Betinho morreu mas os problemas em relação ao Banco permanecem vivos, a mesma vinculação ao mercado, a mesma busca do lucro desenfreado, a mesma dependência das “instruções e interesses do governo” acima de seu papel de fomento à produção e aderência às questões sociais. É esse Banco que precisamos resgatar, esse Banco que financia 70% do agronegócio, em um movimento nacional semelhante à Ação de Cidadania tão bem capitaneada pelo saudoso Betinho, com a adesão maciça dos funcionários da ativa e aposentados, fortalecidos pela atuação firme e constante de nossas associações.

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